Governo interna dependentes de crack à força

O governo de São Paulo decidiu internar dependentes químicos para tratamento, mesmo contra a vontade deles. A medida foi tomada após um ano da desocupação da Cracrolândia, quando a polícia foi às ruas do centro da cidade, prendeu traficantes e removeu viciados. A ação foi radical, mas um ano depois, parece nunca ter ocorrido. Atualmente, existem grupos de dependentes espalhados por dez bairros da cidade. A Cracolândia hoje não é mais só uma, são várias. Ainda assim, o governo estadual faz um 
balanço positivo da operação, oferece 700 leitos para tratamento e vai recorrer à internação compulsória para os casos extremos. "Nós temos a presença do juíz de direito, do promotor público, advogados e da equipe médica. Então, nos casos mais graves, em que a pessoa está correndo risco de vida, está extremamente debilitada e tem dificuldade até de tomar decisões, o médico pode recomendar à Justiça a internação involuntária", explica o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Para o psicanalista Antônio Sergio Gonçaleves, não existem soluções rápidas para o problema do crack. “Essa cena que incomoda tanto é, na verdade, a ponta do iceberg. Uma ação só da Saúde ou apenas da polícia não basta. É preciso envolver respostas, por exemplo, como a questão de moradia e de geração de renda, trabalho. As pessoas precisam viver e precisam ter motivo pra continuar vivendo”, analisa. Missionários que trabalham diretamente com os dependentes também acham que a medida não resolve. “Só funciona quando a pessoa aceita, não adianta levar. Igual ao nosso caso, às vezes, a gente leva e a pessoa não aceita a nossa regra e com um, dois dias, vai embora. Mas muitos permanecem, então tem que ser livre, por que não adianta levar que quando soltar vai ser pior”, opina Eliseu Dias, da Associação Missão Belém. Uma mulher que não quer se identificar, de 33 anos, já ficou um ano e meio sem usar a droga, mas voltou à rua. A internação à força, segundo ela, não é a solução: “Porque você fazer uma coisa obrigatoriamente, sem o seu coração, vai ser que nem eu, eu vou fingir e sair de lá mais revoltada, pior do que eu entrei. Entra ladrão de galinha e sai ladrão de banco. Então, não adianta. Eu acho que a pessoa tem que ir de coração, ter a certeza que aquela vida é horrível, não serve mais para ela, que é o fim do poço e precisa mudar”. Já a ex-dependente Cirlene dos Santos Rosa, só mudou por amor às filhas. Ela lembra dos quase seis anos em que perdeu a guarda das crianças, hoje adolescentes. Cirlene aceitou o tratamento, mas diz que há situações em que a internação compulsória pode ser necessária. "Eu internaria pessoas que já estivessem no fim mesmo, que já tivesse com problemas no corpo, com feridas, que não pudesse mais andar, que você visse que já está debilitada. Esse tipo de pessoa eu internaria para ajudar a ter a saúde dela de volta. De acordo com os dados do governo de São Paulo, desde que começou a operação na Cracolândia, mais de mil pessoas foram internadas e mais de 700 foram presas.

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